Era sábado, 22:15h e nós estávamos no carro, eu e ele. Estava frio e resolvemos ir para a casa dele ver tv. A casa dele é um apartamento de dois andares, em baixo mora ele e a tia dele, e em cima moram o pai e mãe. Nós chegamos, entramos no apartamento de baixo e estava além da tia que mora com ele outra que estava passando o final de semana, ambas nervosas, haviam escutado um barulho alto vindo lá de cima, como se algo muito pesado tivesse sido derrubado. Ele subiu… mais barulhos. Eu e a tia-visita resolvemos ir ver o que estava acontecendo, subimos. Quando botei o pé na sala, um homem, pé de cabra em mãos mandou: “não olhem pra mim, cabeça baixa, deitados no chão do quarto, agora!”, eu caminhei até o quarto e deitei, a tia-visita não foi rápida o suficiente e foi atirada contra a parede; com ele dentro da casa haviam mais dois e outro estava do lado de fora falando com eles por rádio, os que estavam dentro da casa tinham facas e armas. Pela primeira vez na minha vida, eu achei que ia morrer.
O discurso foi o mesmo durante os primeiros quinze minutos: “onde está o dinheiro”, “onde está o cofre”, “eu vou matar vocês”, “olhem para o chão”. Então a coisa mudou um pouco e eu senti um arrepio. “Vou arrancar um dedo de cada vez da sua mais novinha, até você me dizer onde está o cofre” (o você dessa frase é o pai do meu namorado). E só pra constar, a mais nova ali era eu.
“Procurem uma faca, que eu vou acabar com essa história”. Por fora eu estava serena, calma, transparecia tranquilidade, por dentro eu estava tremendo por inteira, meu coração batia mais rápido e eu mal conseguia respirar. E então ele veio e me levou pra outro cômodo me puxando pelo capus da jaqueta. Me colocou sentada e com uma faca no meu pescoço perguntou: “onde está o cofre?”. O problema era que eu não sabia de cofre nenhum e não era isso que ele queria ouvir. Então ele pediu que eu esticasse a mão sobre um balcão, posicionou a faca sobre os meus dedos e perguntou novamente: “onde está o cofre do teu pai?”, ai uma luz se acendeu, ele achava que eu era a filha do cara, ele não me conhecia, eles não eram da cidade. Eu pensei e respondi, sentindo a pressão da faca: “Ele não é meu pai, ele é meu sogro, eu não moro aqui, eu não sou da família, eu não sei de cofre, pelo amor de deus eu não sei de cofre nenhum”. Então ele parou, levantou a faca e completou: “que azar você ter vindo parar aqui justo hoje, você é mulher, não tem culpa e não merece que te aconteça nada, pode voltar pro quarto”. Ali eu percebi que se nada tinha me acontecido naquele momento, não iria acontecer mais, era só obedecer e esperar, deitada no chão com a cabeça grudada no carpete esperando o tempo passar.
As ameaças, perguntas, chutes e pontapés duraram em torno de uma hora e então eles resolveram nos amarrar, duas no quarto, eu e a tia-visita que estava em estado de pânico e os outros três, o meu namorado - também mutito nervoso, o pai e a mãe dele em outro quarto. O cara que tinha me levado pra cortar meu dedo foi me amarrar, ele claramente era o líder, e me perguntou: “como é o teu nome?” eu respirei, pensei e respondi: “Michelli”. Isso podia ser a minha sentença de morte na hora, se eles descobrissem, mas no futuro, se eles voltassem ou fossem presos, podia ser a minha salvação.
Ele acreditou, e perguntou ao outro se todos tinham sido revistados e se tinham pegado todos os celulares e telefones da casa, o outro respondeu que sim, mas ele estava errado, ele não tinha me revistado e não tinha levado o meu celular. Então o líder tirou os meus tênis, pegou o cadarço deles, me colocou de bruços, e amarrou meus pés, perguntou se estava muito apertado. Amarrou minhas mãos e depois os pés às mãos, me deixando apenas com o tronco encostado no chão. Apertou a minha mão que estava amarrada nas costas e disse: “tchau michelli!” - que simpático.
Eles desceram e eu por um minuto achei que tinha acabado, então eu me lembrei que a tia que morava no andar de baixo não estava ali em cima e foi quando ouvi os gritos, eles a acharam lá em baixo e tudo começou outra vez, ela gritava e eles a batiam. Depois de um tempo, que pareceu imensamente longo, trouxeram ela pra cima e amarram junto com os outros no outro quarto. Enquanto isso acontecia e o que vigiava a gente subia e descia de um andar para o outro eu ia descobrindo os meus nós, e froxando-os, o fio que ligava mãos e pés me machucava e era fácil de desatar o problema era que o cara ia ver e podia amarrar mais forte.
Foi quando eles se deram por conta que o jornal que tem do lado da casa é de propriedade deles, queriam a chave, e quando descobriram que tinha alarme queriam a senha, mas não confiaram quando meu namorado disse. Então eles o levaram para abrir o jornal. Nisso, o vigilante ficou sozinho e eu o chamei e pedi que desatasse só aquela pra mim poder espichar as pernas, ele pensou um pouco e desatou, verificou se o resto estava bem amarrado e desceu. Eu não sabia o que acontecia lá em baixo, mas ouvia os gritos do meu namorado, então vi quando alguém deu a partida na ranger que estava estacionada na frente da casa. Quando o carro partiu eu comecei a me desamarrar, eu nem tinha certeza se era o fim, mas não aguentava mais. A tia-visita disse pra eu deitar e parar de me desamarrar, quando ela viu que eu tinha soltado as mãos, que eles iam voltar e me matar, mas eles já tinham ido embora e a outra tia que estava no outro quarto também já tinha conseguido se soltar e tinha buscado facas pra cortar as cordas, eu soltei os pés, peguei o celular e liguei para a brigada militar e depois para o meu pai. Então eu me dei conta do que tinha acontecido, todos estavam bem, o meu sogro tinha um corte de cafa na barriga, as tias estavam machucadas, o namorado estava em estado de pânico, mas na real estava todo mundo bem. Naquele momento eu percebi o quanto a morte cruzou perto de mim naquelas horas, olhei o relógio, 00:06h, duas horas de pânico. A partir dai eu comecei a chorar.
Eu disse o que sabia para a polícia, e fui pra casa, as 02:40 da madrugada a minha sogra me ligou, a polícia tinha feito perceguição, houve tiros, eles bateram o carro, e dois haviam sido presos, a maioria das coisas recuperadas. Eu não durmi essa noite, fiquei com medo e nervosa e achei que precisava escrever aqui pra desabafar. Não sei se estou triste, abalada, apavorada, o que eu sei é que essa não foi a rimeira experiência desse tipo da minha vida, mas foi a mais marcante.
Boa semana pra vocês, e tomara que pra mim também, afinal a vida segue em frente.